domingo, 6 de setembro de 2015

1975 - Festival de Águas Claras - Brasil


Festival de Águas Claras





("Não encontrei muitos registros em vídeo, acho que pouca gente filmou devido a existência, apenas de filmadora Super 8 ou 16, era muito cara, quase ninguém tinha na época, mas agora encontrei mais informações e fotos".)


Conhecido como o "Woodstock brasileiro", o Festival de Águas Claras foi um evento musical que que contou com grandes músicos brasileiros e teve quatro edições, em 1975, 1981, 1983 e 1984. O festival foi feito na Fazenda Santa Virgínia, na cidade de Iacanga, interior de São Paulo. Milhares de jovens brasileiros rumaram para o meio do mato para curtir som, tomar banho de rio sem roupa e curtir a finaleira do sonho hippie. Nomes como  Egberto Gismonti, Mutantes, Raul Seixas e até João Gilberto passaram por lá.

Nu com a mão no bolso

Os organizadores chamaram o evento de "uma grande quermesse brasileira", comentário absolutamente válido contando que participaram músicos de rock 'n' roll como Raul Seixas e Apocalypsis e MPB, como João Gilberto, Egberto Gismonti, Moraes Moreira, entre muitos outros. O Festival de Águas Claras é o grande sinalizador do fim da época do movimento hippie, a era Flower Power. Uma grande reunião de pessoas celebrando a Paz e o Amor, clamando por um mundo justo e pacífico.

O organizador do evento foi Antônio Checchin Júnior, o Leivinha. Ele nos conta o seguinte: “Eu havia escrito uma peça de teatro e juntei um grupo musical para fazer a trilha sonora. Surgiu a ideia de encenar ao ar livre e começaram a aparecer algumas pessoas interessadas em tocar com a gente. Aí fizemos o Festival de Águas Claras, que nunca teve a intenção de ser parecido com Woodstock, mas haveria essa associação com qualquer evento que fosse feito daquele jeito.”

Antônio Checchin Júnior, o Leivinha

Então com 22 anos, Leivinha utilizou a fazenda do pai como ponto de encontro de 30 mil jovens do Brasil e de outros países da América do Sul para ver grupos como O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Mutantes, já sem Rita Lee, e Moto Perpétuo, do qual fez parte Guilherme Arantes. E por que a comparação era inevitável? “O público foi maravilhoso. Não tivemos uma briga nem nada que pudesse desprestigiar o festival”, lembra. “A história do nu do pessoal acontecia na hora do banho. Só um ou outro é que tiravam a roupa no meio do público, para aparecer. Apanhávamos laranja e milho, e o pessoal da fazenda fazia comida para distribuirmos.”

“Foi uma catarse coletiva e um exercício muito bonito de liberdade, numa época em que havia um anseio enorme de participação entre as pessoas e em que se provou que a causa de paz e amor bem que poderia ter dado certo”, diz o cantor e compositor Walter Franco, que também se apresentou ali e hoje é vice-presidente da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus). O produtor musical Pena Schmidt, responsável pela captação do áudio do evento para ser registrado em disco, ficou com a mesma impressão: “Foi absolutamente em paz, cada um se cuidando e, quando preciso, sendo solidário. No ambiente, lembro apenas da visita de policiais civis, que não foram agressivos. Não me lembro de ocorrências”.

Um dos presentes na plateia era Celsão de La Mancha, então com 19 anos, que hoje se autodefine como “hippie cibernético” e prefere não aparecer com o nome da carteira de identidade. “Tinha um alambique ali perto e de vez em quando a gente saía na garupa de uma moto, ia até lá e trazia dois garrafões. Comida, batíamos nas casas para pedir. Fiquei uns quatro ou cinco dias acampado e fui uma das últimas pessoas a sair, por causa da paz.” Ele mora em Bauru e continua colocando uma mochila nas costas e o pé na estrada.

O hippie cibernético Celsão de La Mancha

Ideias subversivas

O ambiente de ditadura dificultava qualquer evento que promovesse grandes reuniões. “Durante um mês e meio, eu ia praticamente todos os dias à Secretaria de Segurança tentar liberar o festival. Só consegui quando o secretário, na época o Erasmo Dias, me mandou para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para assinar um termo de responsabilidade pelos atos de subversão que acontecessem”, lembra o organizador. “Depois me proibiram de fazê-lo novamente durante seis anos. Eles queriam nos prender de qualquer jeito, mas não tinham motivos, porque não era uma reunião política. Mesmo assim, levavam para o camburão quem estava andando pelado, mas a gente virava o camburão e todo mundo saía”, acrescenta Celsão.

Erasmo Dias

Um documento emitido pelo então ministro da Justiça, Armando Falcão, guardado por Leivinha até hoje, relata a visão do regime militar para a ocasião: “Durante a realização (do Festival de Iacanga), o uso de entorpecentes, bebidas alcoólicas e atos imorais foram abertamente praticados; aproveitando-se do ambiente próprio, propagadores de ideias subversivas vinculavam propagandas com as seguintes frases: ‘Viva a Mocidade Socialista’, ‘Viva Che Guevara’, ‘Viva a liberdade estudantil’”.

Uma segunda edição do evento foi realizada só em setembro de 1981, com estrutura mais profissional, cobertura de TV e ingressos vendidos nas agências do Unibanco. Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Alceu Valença, A Cor do Som, 14 Bis e Moraes Moreira estavam lá. “O show do Hermeto Pascoal varou a noite toda e o Egberto Gismonti tocou Palhaço, com grupo de palhaços que fazia a segurança dançando na frente do palco”, destaca Leivinha.

“O festival realmente teve um impacto no meu comportamento. Posso falar em antes e depois dele. Lembro de algumas pessoas tocando violão em volta de fogueiras. Tinha uns shows a tarde, de música instrumental, bem legais, garrafas de cachaça passavam de mão em mão e garotas tomavam banho seminuas num rio cheio de barro e em duchas improvisadas. E tudo no clima de paz e amor, não me lembro de uma briga sequer”, recorda Celso Fonseca, um estudante de 18 anos na época, hoje jornalista e crítico musical. “O festival mantinha um espírito hippie tardio. O Brasil estava décadas atrás dos movimentos mais libertários e de contracultura europeus e americanos. Para se ter uma ideia, o romance On The Road, de Jack Kerouac, inspirador do ideário hippie, só chegou por aqui no início dos anos 80, com quase três décadas de atraso”, observa.

Já tem uma edição em português

O cinegrafista Adauto Nascimento prepara um documentário com material inédito registrado em 16 milímetros, 81 em Iacanga (veja o vídeo do Youtube logo abaixo em 1981) – há uma prévia disponível no YouTube. “O festival reuniu grandes nomes da música brasileira e as pessoas iam para viver dias de harmonia e liberdade. A maioria se emociona ao falar dele. Todos querem ver essa história contada”, garante.

Um projeto de documentário também estava sendo tocado por Thiago Mattar, com apoio de Leivinha. “Tem muita gente que nunca ouviu falar desses festivais, queremos mostrar que foi possível termos um festival de música nos moldes de Woodstock em plena ditadura militar”, diz o diretor, que esperava finalizar o trabalho até 2012. Neste vídeo abaixo, você ouve uma entrevista de Thiago Mattar para a Rádio Matraca:

Rádio Matraca - Especial Festival de Iacanga - Laert e Thiago Mattar



Lama milagrosa

Em junho de 1983 ocorreu a terceira edição, também muito eclética, com Armandinho, Dodô e Osmar, Arthur Moreira Lima, Egberto Gismonti, Fagner, Premê (ainda Premeditando o Breque), Sandra Sá (ainda sem o “de”), Paulinho da Viola, Sá e Guarabyra, Erasmo Carlos e Wanderléa. “O Erasmo Carlos queria um Landau para chegar à fazenda. Mas ele e a Wanderléa subiram atrás de um trator e foram assim até o palco. Anos depois ele me disse: ‘Guardei aquela lama milagrosa numa caixa de fósforos’ ”, conta Leivinha.

A entrada de Raul Seixas, no segundo dia de show, foi uma grande frustração. Com ele chapado, seu show teve de ser em play back. Parte do público, irada, passou a gritar por “rock” o tempo todo e ofuscava outras apresentações. Quem pacificou o ambiente foi Walter Franco, entoando “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” como um mantra até ser seguido por toda a multidão. Para Leivinha, o apogeu dessa edição foi a participação de João Gilberto: “Ele subindo num palco às 6 da manhã, com o sol nascendo, e 70 mil pessoas molhadas de chuva, na lama, cantando junto ‘isso aqui é um pouquinho de Brasil’ foi de arrepiar”. (Veja o vídeo logo abaixo em 1983).

A hippie Rosa Cheixas, que adota o codinome Sétima Lua, tinha 21 anos e fazia artesanato em São Paulo quando tomou o trem em direção a Iacanga. “Meu namorado e eu chegamos lá 15 dias antes. Não havia ninguém ainda. Então pegamos uma lona preta e armamos uma tendinha”, lembra. “O festival foi muito legal, com pessoas de cabeça bacana, que compartilhavam tudo. Era sexo, drogas e rock’n’roll, no melhor sentido. Gilberto Gil, Hermeto Pascoal e Moraes Moreira eram nossos heróis, expressavam o que pensávamos. O Raul era um cara sem comentários, hiper esperado. Mas só interagiu com a gente rindo por estarmos na lama, porque, cantar, ele não cantou (risos).” Rosa gostou tanto de Iacanga que resolveu se mudar para lá em 1984. Teve filhos e hoje, dá aulas como voluntária, trabalha com reciclagem de jornal e cuida da neta Sofia, de 6 anos.

A hippie Sétima Lua no portão do festival

O conjunto paulista Língua de Trapo também devia tocar em 1983, mas não conseguiu: “Choveu muito e formou um lamaçal que impedia chegar ao palco. Alguns artistas foram levados de helicóptero, mas estava anoitecendo e, por segurança, nos comunicaram em cima da hora que não haveria o nosso show. Já em 1984 fizemos meio show, porque começou a ventar tanto que duas colunas de som caíram no palco, e saímos correndo. Nosso guitarrista, Sérgio Gama, ficou feliz porque o Raul Seixas pediu a guitarra dele emprestada”, diz o vocalista Laerte Sarrumor. “No palco e nos bastidores, havia estrutura de um grande show para ser televisionado. Mas na plateia o clima era mesmo meio hippie, com pessoas acampadas e a sensação de liberdade. Só não sei se havia um embasamento filosófico ou se era pura curtição.”

O guitarrista Sérgio Gama da Banda Língua de Trapo

Da quarta edição, em pleno Carnaval de 1984, poucos têm saudade, a começar pelo próprio organizador. “Fui meio obrigado a fazer por questão de patrocínio. Eu sabia que aquela não era a época certa para esse tipo de coisa. Depois, achei melhor parar com tudo”, lamenta. O hoje advogado Leivinha toca flauta, pinta e planeja construir uma pousada na Chapada dos Guimarães (MT) –  a fazenda Santa Virgínia foi vendida após a morte do seu pai. E ainda sonha em realizar na chapada um show com o músico grego Vangelis e uma orquestra sinfônica. “Não sei se aquilo se repetiria. Mas eu teria curiosidade em ir, caso acontecesse outro show”, diz Rosa Cheixas. Celso Fonseca também: “Eu estaria lá, como o tiozão de Iacanga. Tenho muitas saudade daqueles dias; mesmo sendo muito ingênuos, nossos sonhos voavam alto”.

Fazenda Santa Virgínia na época do festival




Participantes da edição de 1975:


Mutantes
Som Nosso de Cada Dia
Terreno Baldio
Apocalypsis
Walter Franco
Ursa Maior
Moto Perpétuo
IA2CO
Tibet Burmah
Grupo Capote
Jorge Mautner
Acaru Raízes
Corpus
Mitra
Marcus Vinicius
Nushkurallah
Rock da Mortalha
O terço
entre outros

Festival de Águas Claras - 1975 - Banda Apocalypsis




Participantes da edição de 1981 - dias 04,05 e 06 de Setembro:


Canhoto do Ingresso

Gilberto Gil
Luiz Gonzaga
Alceu Valença
Egberto Gismonti
A Cor do Som
Moraes Moreira
Bendegó
Hermeto Paschoal
Papete
Almir Sater
Duduca e Dalvã
Consertão
14 Bis
Oswaldinho
Diana Pequeno
Novos Valores
TUTTI FRUTTI


81 em Iacanga




Raul Seixas II Festival de Águas Claras





Participantes da edição de 1983 - dias 02, 03, 04 e 05 de Junho:


Armandinho e o Trio Elétrico de Dodô e Osmar
Arthur Moreira Lima
Egberto Gismonti
Fagner
Grupo Premê
Jorge Mautner
Sandra Sá
Moraes Moreira
Oswaldinho
Paulinho da Viola
Paulinho Boca
Raul Seixas
Sá e Guarabira
Expresso Rural
Sivuca
Vanderléia
Walter Franco
Erasmo Carlos
Wagner Tiso
Participação especial de João Gilberto
entre outros

João Gilberto Festival de Águas Claras 1983 completo full concert)




Participantes da edição de 1984


(Não encontrei os dados sobre participantes)

A Gota Suspensa - Festival de Águas Claras




Da quarta edição, em pleno Carnaval de 1984, poucos têm saudade, a começar pelo próprio organizador. “Fui meio obrigado a fazer por questão de patrocínio. Eu sabia que aquela não era a época certa para esse tipo de coisa. Depois, achei melhor parar com tudo”, lamenta.


Veja o próximo festival: 1980 - Monster of Rock - Castle Donnington - Inglaterra
ou
Volte ao festival anterior: 1975 - Hollywood Rock - Brasil

Fontes: 
Wikipedia
Rede Brasil Atual


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